Tomada pela alegria que só ébrios encontram, passeei pela festa, cumprimentando os amigos na beira do bar, enquanto pedia outra cerveja. Eis que entrei num hemisfério mal iluminado, onde o reavistei. Ah, se o semi-breu fosse capaz de me fazer não reconhecê-lo, pensei. Mas passei como quem passa por ninguém. Segui firme com a passada de pernas já não mais tão estável como antes. Nem mesmo o álcool me fez hoje tão trôpega, admiti. Momentos depois, alguns me disseram que ele estava a olhar para o lado que saí e que ficou até nas pontas dos pés, olhando por cima de todos (a me procurar?).
Cinco minutos foram suficientes para me fazer retornar e revelar mais do que a superficial ponta do iceberg. Era necessário falar - mas dizer exatamente o quê? - da parte dele, era sabido e dedicada a culpa do desfecho tétrico. Dei-me conta que sua função seria somente ouvir, pois precisava falar o que ficou ocultado há meses. A língua arrancaria das cordas vocais o que lá ficara preso.
Saiu, simplesmente fluiu: pela pressão e surpresa de vê-lo ali, acreditando que já teria partido. Copo entornado, mais confidências escapavam para quem teria acabado de sentir uma degustação amarga de desprezo. Co-var-de. Disse assim, como se a divisão silábica aumentasse a covardia por ele arquitetada, como se fosse possível torná-lo mais desprezível do que quando o ignorei tão friamente. Apenas concordou com a cabeça, parecendo conformado. Finalmente - a essa altura, alcoolicamente potencializada - confessou que não se permitiria esquecer de mim, de nós, de toda a bagunça que deixamos na véspera carnavalesca, no banco do carro aonde há marcas de vinho derramado, no restaurante do jantar salgado, nas marchinhas, no samba desafinado dos sábados.
E antes que eu fosse, me abraçou frouxamente, talvez para me deixar escapar, desvencilhando integralmente em prol de uma despedida menos áspera. Desta única, definitiva e derradeira vez, não tornei para trás. Não, era engano, nunca havia sido grave.
- Leticia Remiggio