1. um fim, por favor.

    Reunir forças todos os dias, apesar de. Que esses dias tem sido mais do que difíceis, e eu tento encarar como um teste. Se é pra ver se aguento ou até onde suporto tudo. E vou confessar que já deu, que a graça - se é que teve alguma - já passou, e seja lá a quem atribuir a culpa a tudo isso, devia parar por aí.

  2. Sentimento surdo

    Deixa eu remoer: que é triturando que vou entender a situação e o que estou sentindo.

    Antes de expurgar, vou passar e repassar todas as amarguras dos episódios e seus respectivos diálogos, porque esse é o meu ritual de superação.

    Embora nem sempre seja possível eliminar a chateação e rancores proeminentes.

    Mas que não se esqueça e não permaneça as dores - para o coração e a mente não carregarem peso extra.

    Leticia Remiggio.

  3. Il a disparu

    Daquilo que eu queria te dizer, daquilo que ainda não saiu.
    Da falta que sinto, mas do orgulho que não vou dobrar.
    E o que eu não quero (mais) falar: nem dores, nem despedidas.
    Muito sei que por entre tudo que foi dito, a maior parte foi perdido.
    Porque essas coisas caíram da tua bagagem enquanto partia - era o que eu temia.

    Ficaram, dentro de casa, lembranças que volta e meia reaparecem na esquina do quarto.
    Acontece que mesmo para o teu fantasma, não saberia dizer palavras doces.

    Leticia Remiggio

  4. Bom, adeus.

    Tu fostes, levemente e sem mais resistências. Atravessou a bolha que compreendia o homem vitruviano, a cerca imaginária da nossa amizade. Foi-se sem vestígios, livre de qualquer arrependimento, como imigrante clandestina. Não deu o trabalho de se despedir, tampouco exigiu exoneração do relacionamento. Fostes e talvez tenhas ido antes mesmo de alfinetar a tal bolha e diluir o conteúdo nela contido em vácuo. A presença física permaneceu, enquanto o pensamento já se perdia em algum recôncavo aleatório qualquer. Tu não percebestes - ou dissimulou não perceber - que corri o mais veloz que pude, desejando te alcançar antes que o retorno já não fosse mais possível. E essa corrida atrás do vento, embora muito tenha me cansado, ainda restou alguma força - oriunda do afeto mais profundo que eu sentia por ti - para chamá-la novamente. Ininterruptamente chamei, até perder a voz e não obter retornos.

    Os dias passaram. Voltei à mim, recuperei as cordas vocais e o bom senso. Dei-me conta que paz maior não poderia ter permanecido: prefiro antes conviver com a cadeira do lado vazia e erma, esperando alguém que mereça preencher o lugar com sua presença integral, e além disso: que compartilhe e participe de um hemisfério da minha vida, do que tê-la ocupada só para amenizar a solidão.

    Antes que hesite em voltar, para responder aquilo que nunca consegui perguntar, ou aparecer inesperadamente para reclamar saudade ou qualquer coisa parecida, desconsidere e engula a vontade. Não há nada mais nada que possa ser feito ou restaurado. Não convém mais você na minha vida, pois ao partir, outro alguém não somente preencheu, mas agora ocupa o teu lugar.

    Leticia Remiggio

  5. sobre o riscado

    - “Eu te entendo, fica tranquila”. 
    Escreveu, em letra Verdana vermelha. Não escrevi de volta, mas respondi vocalmente: NÃO, não entende.
     
    Como ficar tranquila em meio à falta parcial-quase-total de objeção por parte tua? Não percebes o quão difícil é ter que sair dessa capa que intitulo intimamente como concha, para mostrar que não possuo pérola dentro? E que mesmo não a possuindo, permito que me olhes, que saiba, que conheça este oco, este vão que trago internamente. Não vês que anulo minha vergonha e meus medos em prol de te mostrar minha lacuna mais sórdida? Confiro-te livre acesso em mim, assim como nunca fizera à ninguém. Não peço absolutamente nada em troca, só peço algo que me garanta tua vontade de continuar(mos). Algum sinal, de qualquer tamanho ou intensidade, não importa.
     
    Piso confiante embebida de intuição, mas ainda assim, impossível ser imune às quedas - até o reconhecimento preciso do terreno o qual caminho. Apenas aguardo o momento de dar com o corpo no solo, desprovida de amortecimento. Mas talvez com certa destreza, sorte (ou milagre), eu conseguirei sair totalmente ilesa ou ainda, na pior das hipóteses, portando uma coleção de feridas irrisórias. Quero ao menos um arranhão, minúsculo que seja, para provar que andei - e sobrevivi - ao breu. 
     
    Não venho por meio deste cobrar a transferência da tua essência para o preenchimento das minhas valas, muito menos peço para que me transmita algum sentimento de complacência. Não preciso, não quero. Mas gostaria que em algum dia, num breve quando, você realmente me compreenda. Assim como eu também queria compreendê-lo e daí então, deletarei todas as minhas dúvidas. Sim, prometo excluir também todos os meus porquês, que tanto te desgastam.
     
    A reciprocidade reclama em mim um retorno. Corrijo: uma resposta. Porque a falta da certeza me provoca bastante incômodo. Tenho tentado contorná-la, aliviá-la, contê-la. Em vão. Não sei dissimular sorriso, responder que está tudo bem quando verdadeiramente.. ah, verdade mesmo é que eu até engoli uma verdade e meia, mas a outra metade não entrou. Apresento-te à ela agora. Não faça cara feia. A verdade tem sua feiúra, mas ao contemplá-la melhor, perceberás o quão bonita ela é e reconhecerá que a beleza nela contida ofusca qualquer feio ou torto traço. Mas, por enquanto, eu continuo dormindo sobre o travesseiro do desconforto e aproveito ainda as poucas horas de sono que posso desfrutar.
     
    Leticia Remiggio

  6. desabafo

    Não é justo ser tão feliz e tão triste ao mesmo tempo.

    Ainda vou levar muita porrada da vida, eu sei.

  7. Pas grave

    Tomada pela alegria que só ébrios encontram, passeei pela festa, cumprimentando os amigos na beira do bar, enquanto pedia outra cerveja. Eis que entrei num hemisfério mal iluminado, onde o reavistei. Ah, se o semi-breu fosse capaz de me fazer não reconhecê-lo, pensei. Mas passei como quem passa por ninguém. Segui firme com a passada de pernas já não mais tão estável como antes. Nem mesmo o álcool me fez hoje tão trôpega, admiti. Momentos depois, alguns me disseram que ele estava a olhar para o lado que saí e que ficou até nas pontas dos pés, olhando por cima de todos (a me procurar?).

    Cinco minutos foram suficientes para me fazer retornar e revelar mais do que a superficial ponta do iceberg. Era necessário falar - mas dizer exatamente o quê? - da parte dele, era sabido e dedicada a culpa do desfecho tétrico. Dei-me conta que sua função seria somente ouvir, pois precisava falar o que ficou ocultado há meses. A língua arrancaria das cordas vocais o que lá ficara preso.

    Saiu, simplesmente fluiu: pela pressão e surpresa de vê-lo ali, acreditando que já teria partido. Copo entornado, mais confidências escapavam para quem teria acabado de sentir uma degustação amarga de desprezo. Co-var-de. Disse assim, como se a divisão silábica aumentasse a covardia por ele arquitetada, como se fosse possível torná-lo mais desprezível do que quando o ignorei tão friamente. Apenas concordou com a cabeça, parecendo conformado. Finalmente - a essa altura, alcoolicamente potencializada - confessou que não se permitiria esquecer de mim, de nós, de toda a bagunça que deixamos na véspera carnavalesca, no banco do carro aonde há marcas de vinho derramado, no restaurante do jantar salgado, nas marchinhas, no samba desafinado dos sábados.

    E antes que eu fosse, me abraçou frouxamente, talvez para me deixar escapar, desvencilhando integralmente em prol de uma despedida menos áspera. Desta única, definitiva e derradeira vez, não tornei para trás. Não, era engano, nunca havia sido grave.


    - Leticia Remiggio

  8. En attendant…

    A louça espera para ser lavada,
    Espero ouvir tua voz me chamando em outro cômodo da casa,
    Espero a roupa no varal ser pelo sol secada,
    E a água do arroz evaporada.

    Espero outra vez você me dizer que volta, em breve.
    Espero que diga que não foi grave o motivo do sumiço,
    Que tu e as coisas andem bem,
    Que o sufoco passou, que o problema acabou.

    Espero liquidar a saudade,
    Abraçar em triplicada intensidade
    Compor sorrisos largos
    Andar de mãos dadas contigo pela cidade.


    p.s.:

    consultar o dicionário sempre traz surpresas

    - Leticia Remiggio

  9. Fórmula

    Difícil é recusar certos pensamentos doloridos à noite, que fazem até o travesseiro afundar mais que o de costume, tamanho peso a cabeça adquire.
    São meditações que só acontecem noturnamente, sorrateiras. Porém, aquecidas pelos lençóis e alimentadas pelas minhas dúvidas, reclamações, lamentações e afins. Todos os meus desabafos, que aparecem mais vívidos justamente no auge daquilo que deveria ser meu mais sereno sono.


    Reluto para não me afogar no mar de algodão 180 fios, esforçando as sinapses para atrair ideias boas - ou no mínimo mais leves, menos comprometidas com a dor. Não pensar em nada seria o ideal. Esgotar a fonte, represar tudo isso num hemisfério longínquo e escondido do cérebro pra não ser tão facilmente encontrado. Deveria ser possível esvaziar essa mente latejante, como quem deixa um cômodo vazio. Não funciona.

    - Leticia Remiggio

  10. Vou esgotar o cheirinho da camiseta que você deixou.

    J.,

    Primeiro por ter me feito tão mais do que feliz nesses últimos tempos; segundo por ter sido totalmente inesperado, assim como aquelas chuvas em dias de céu-azul-claro-sem-nuvens. Depois por ter dito “as palavras”, como desabafo daquilo que tomou proporções dilatadas, desenvolvida no acaso, e também pelo cumprimento da reciprocidade - a qual nunca permitiu falhar.

    E que agora me dá saudade de ficar olhando pro fundinho dos teus olhos, tentando descobrir (em vão) o quê e por quê te gosto tanto assim, recostada no teu braço em horizonte confortável. Da curva quente do teu ombro, do teu sorriso tímido. E acrescento que eu poderia listar infinitamente daquilo e do quê tenho mais saudade, mas a maior delas, é de ti, por inteiro.

    Perceber que devo perdão por ter sido ingrata ao dizer que tu devia ter vindo antes, mas não por mal, e sim por querer te ter perto por mais tempo. Mesmo sabendo que esse tempo nunca seria suficientemente satisfatório. Aparente ideia de conformidade, frustrante por ser tão injusta.

    Por isso, ter que te deixar ir, como um balão de gás hélio. Te dar a licença para poder voar, e se os ventos permitirem, que também te tragam de volta (e hão de trazer).

    cariño, mi amor,

    Leticia Remiggio.

  11. La mañana nace

    Por quase dois meses, do décimo quarto andar, assisti inúmeras vezes a noite cair, afogando o sol em negro silêncio. E mentalizava: “La mañana nace”.

    Confesso que devo ter esquecido o otimismo em alguma esquina qualquer, a fé deixei numa lacuna triste e a esperança abandonei em alguma madrugada ingrata. O que me restou, ou melhor, o que restou em mim, foram doses de desilusão, gotas de amargura, uns risos irônicos e muito, mas muito realismo (ou aquilo que eu cria ser real). E assim vim seguindo. Mal, torta ou decadente, como queira classificar.

    Adquiri um escudo espesso, que me garante uma espécie de proteção, me amortece na queda e no medo, me permite ser bem mais forte do que eu era. De fato, só aparentei e não me tornei, pois há uma diferença significativa entre pretender e realmente ser.  O tal escudo também me proporcionou segurança. Eu avancei no tempo - e na vida - munida dessa pseudo-proteção que julgava ser suficiente e indispensável. Não tardou a chegar o dia que me provou o quão equivocada estava.

    O primeiro sinal do meu erro estava no peso, pois portar tão espesso escudo também era sinônimo de incômodo. Depois percebi que o custo-benefício não compensava: havia um limite entre proteção e covardia, e eu o tinha atravessado. Minha covardia nascia no medo e terminava na desistência de enfrentá-lo. Não era digno.

    Simplesmente eu não podia ser inabalável, invulnerável, muito menos imune. Não devia. Concluí que era necessário me desfazer e abdicar o escudo, para finalmente (re)começar, para voltar a ser quem eu era, resgatar o que compunha minha essência. Não são meias dúzias de quedas, desilusões e amarguras que vão me diminuir, ainda que eu possua um amigo - mesmo estando geograficamente distante para emprestar-me o ombro - nele sempre será possível encontrar uma força, palavra ou sorriso que seja para me recarregar.

    Leticia Remiggio